Detentos no Ceará usam golpe por SMS para recarregar celulares pré-pagos

Por Guilherme Felitti, editor-assistente do IDG Now!





Saiba como funciona o golpe pelo celular que usa nome do SBT para realimentar créditos de recarga de presidiários no Ceará.

As semelhanças com PCs adquiridas pelos telefones celulares nos últimos anos, evidentemente, não ficariam apenas na reprodução de músicas e filmes e na navegação móvel – teria de haver aqueles que tentariam roubar dinheiro por meio dos aparelhos.
Um golpe que usa o nome do canal de televisão SBT em mensagens telefônicas distribuídas a partir do Nordeste vem atingindo usuários incautos em todo o País, prometendo prêmios como carros e casas.
Em uma versão digital do popular Conto do Vigário, a promessa de recompensa exige um ônus – no caso das mensagens, o usuário é obrigado a comprar um número determinado de cartões de recarga para celulares pré-pagos como “prova do interesse”.
Tecnicamente, o golpe tem nome: é chamado de phishing, ameaça de segurança em que os criminosos usam mensagens para convencer o usuário a dar algo próprio em troca de um prometido prêmio.
A prática de phishings em celulares, porém, é recente (com pequenas variações de prêmios e discursos, os primeiros casos do tipo começaram a pipocar no Brasil em 2006) e se beneficia da expansão da base de celulares – em abril, segundo a Anatel, foram 127,7 milhões de aparelhos.
Não à toa, o golpe mais popular usa como principal referência uma comemoração de aniversário do programa “Domingo Legal”, do SBT que distribuiria prêmios para usuários de celulares que recebem as mensagens.
O envolvimento do seu nome fez com que a emissora de TV publicasse um alerta para visitantes do seu site, alegando que “o SBT não entra em contato com os ganhadores por mensagem de texto e jamais (...) exige a compra de algum produto em troca”.
Segundo a empresa, as primeiras reclamações relacionadas ao golpe que envolviam o nome da emissora fundada por Sílvio Santos foram registradas no começo de 2007 e sempre envolveram o programa do apresentador Gugu Liberato.

Como funciona o golpe do SMS
O primeiro contato entre vítima e criminoso é feito por meio de um número de celular na mensagem, apresentado como telefone fixo.
Nos casos analisados pelo IDG Now!, percebeu-se que muitos dos números que se passam pelo “contato oficial da emissora” são usados, posteriormente, para o envio das mensagens.
Esta espécie de rodízio de aparelhos é usada pelos criminosos responsáveis pelo golpe para evitar possíveis rastreamentos – em cinco números usados pelo golpe para os quais o IDG Now! telefonou, apenas um atendeu.
Na ligação gravada, um homem atende dizendo o nome do SBT. Antes mesmo que o cliente pergunte algo, ele pergunta seu nome e número do celular. Caso não queira falar o número, o suposto produtor do SBT desliga o telefone.
Quem passa o número é então informado que tem um prazo (meia hora, na maioria dos casos) para que compre cartões de recarga, que deverão ter a faixa de proteção raspada e o número repassado por telefone, para provar o interesse do cliente na promoção, segundo relato da assistente social M.E.C.
Após ouvir as instruções do criminoso, ela saiu para comprar os cartões e só desconfiou de um possível golpe quando a atendente da farmácia lhe disse que já eram seis as pessoas naquele dia que iam atrás do mesmo número de cartões de recarga da operadora TIM.
Ciente do golpe no qual estava prestes a cair, M.E.C. guardou os quatro cartões que já havia comprado, voltou para casa, ligou novamente para o número e justificou não ter conseguido comprar todas as recargas até que o criminoso desligasse.

Assédio ativo
Em alguns casos, o assédio é ativo. O estudante M.V. recebeu a ligação do suposto produtor dizendo que havia telefonado para afirmar que ele não havia ganhado o carro. Ganharia, continuou, se ligasse de volta de um telefone fixo.
“A voz (do criminoso) era bem aceitável, mas o barulho ao fundo era suspeito – parecia uma sala de telemarketing com gente gritando e erros de português. A comunicação dele era aceitável, mas não convincente”, explica ele, que havia guardado a mensagem original que recebera para ligar de volta “só para sacanear”.
Há muitos, porém, que seguem o exemplo da assistente social.. Em um post que denuncia o golpe no blog Balela.Info, são mais de 300 os comentários de usuários que afirmam também ter recebido a mensagem em suas mais variadas versões, sendo que alguns deles admitiram terem caído no golpe.
Vítima do golpe, o comentarista reconhecido como Paulo Cesar explica como o processo funciona: “Liguei e a pessoa com o nome de Felipe Mello Sampaio pedindo (sic) que eu providenciasse 2 produtos da marca Nestlé de 100g. e 4 cartões da TIM de R$ 25 ou 2 de R$50 e que eu teria 55 minutos para trazer os mesmos. Providenciei tudo e então ele me pediu para passar o código de barras dos produtos.”
“Depois de muita insistência, (...) passei os códigos dos quatro cartões. Então ele disse que ia transferir a ligação para a Advogada do Programa. (...) A ligação caiu. (...)Liguei novamente, ele me atendeu e me deu o trote dizendo palavras obscenas e dizendo que eu era mais um trouxa que caiu no trote do cartão.”
Além de facilmente ultrapassar mais de 10 diferentes números usados por criminosos para o golpe, listados entre os comentários do post do Balela.Info, fica evidente que todas as mensagens são provenientes do código 085, que engloba a região metropolitana de Fortaleza, no Ceará.
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) confirmou que, dos cinco números envolvidos no golpe e testados pelo IDG Now!, quatro são da operadora TIM e um da operadora Oi na região de Fortaleza.
Em comunicado, a TIM esclareceu que “pessoas estranhas à operadora têm usado o nome da TIM para divulgar falsas promoções e falsos comunicados por SMS” e que não há qualquer promoção em vigência que premie clientes pela compra de recargas.
Procurada, a Oi afirmou que não comenta o assunto.
A postura da TIM é corroborada por uma recente decisão da Justiça no caso de um usuário que, vítima do golpe com mensagens de celular, resolveu processar tanto a TIM como a Claro.
O texto da decisão é claro quanto à suposta culpa das operadoras no processo, afirmando que o usuário foi “vítima de golpe criminoso, sem qualquer participação das empresas” e alegando que “a questão é de segurança pública”.
Se a Justiça afirma que o problema é da segurança pública, quem seria o responsável por combater o golpe? Para o major Marcos Costa, da Polícia Militar do Estado do Ceará, é obrigação da PM ajudar nas revistas, tornadas mais freqüentes nos presídios da região por causa do golpe, feitas nas celas dos presos.
“Sabemos que a maioria dos golpes aplicados no Brasil vem do estado do Ceará, notadamente, das unidades prisionais na capital e região metropolitana”, admite o major, que cita o presídio IPPS, com cerca 2 mil presidiários já condenados pela Justiça,como provável centro das operações.
Segundo Costa, possibilidades para um combate efetivo dos golpes, além das rotineiras revistas (“já tivemos uma quantidade considerável de celulares apreendidos neste ano”, revela), terão de sair da Secretaria de Justiça do Estado, que já estuda alternativas.
O órgão avalia a implementação de rastreadores, ao invés de bloquear o sinal celular, identifica o aparelho responsável pelas ligações e, por meio de um canal direto com a operadora responsável, exige sua desabilitação.
Outra medida seria o reforço na revista das visitas aos presidiários motivado também pelos golpes por celular: a Secretaria estuda também a viabilidade de um novo equipamento na porta do presídio que rastreia por inteiro o corpo do parente, indicando até mesmo objetos nas partes íntimas, esclarece o major.
Não há prazo, porém, para que as iniciativas sejam efetivadas. Até lá, o melhor remédio contra o golpe é uma mistura de desconfiança pelo generoso prêmio e consciência da falta de atuação das empresas envolvidas em concursos do tipo, como sugere, além de TIM e SBT, o bom senso.

Fonte: IDG Now!




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